A chegada de João de Ruão a Portugal constituiu um importante marco para arte e a escultura portuguesa, pela inclusão e adenda de novas metodologias e linguagens então ditas ao romano.00

Começando por ser a sua perícia escultórica que mais o destacou – o que lhe granjeou imediata fortuna crítica, apreço e aceitação junto das elites cortesãs e religiosas – posteriormente notabilizou-se pelos seus inovadores e arrojados modelos compositivo, na articulação discursiva de todos os elementos estruturais e narrativos que evidenciam já a nova maneira.

As suas obras evidenciam claras preocupações artísticas, estéticas, filosóficas e teológicas bem representativas do espírito artístico do seu tempo, acompanhando a par as suas congéneres produzidas nos grandes centros artísticos e culturais europeus.  De facto, será por via de intricadas organizações geométricas subjacentes às suas composições, empregues como auxiliares prévias de composição, que João de Ruão concebe notáveis estruturas retabulares – ou de tipologia retabular – organizando discursos e narrativas que ecoam mais vastas e elevadas ressonâncias semânticas, perfeitamente articuladas à luz de leituras iconológicas fundamentadas no coevo pensamento neoplatónico.

Esta comunicação pretende mostrar a transversalidade dos modelos compositivos na sua obra; estratégias compositivas utilizadas; a actualidade e desenvolvimento das metodologias geométricas empregues; esclarecer possíveis questões autorais; e apresentar interpretações iconológicas de algumas das suas obras, nas quais as componentes escultórica, geométrica e compositiva plenamente se entretecem para organizar complexos programas iconográficos e compor discursos reverberando mais elevados níveis de significação.