A análise do Retábulo de Santa Iria, de João de Ruão, evidencia a aplicação de princípios geométricos e matemáticos na escultura renascentista portuguesa. Escultor francês radicado em Coimbra desde 1528, Ruão foi responsável pela introdução de uma linguagem classicista que funde escultura e arquitetura, respeitando os cânones vitruvianos de proporção, simetria e ordem. O retábulo, encomendado por D. Miguel do Valle para a Capela de Santa Iria em Tomar, organiza-se em três níveis visuais, com Cristo Crucificado ao centro, ladeado por figuras bíblicas e elementos arquitetónicos clássicos, como colunas coríntias e frontão ornamentado.

A composição revela um planeamento rigoroso, estruturado por módulos proporcionais, cortes verticais e horizontais, que reforçam a tridimensionalidade e a monumentalidade do conjunto.

Os relevos escultóricos, em baixo e alto-relevo, demonstram domínio da perspetiva e da profundidade espacial, integrando figuras, arquitetura e narrativa simbólica numa estrutura devocional.

O Retábulo de Santa Iria constitui, assim, um exemplo paradigmático da racionalidade geométrica aplicada à arte renascentista em Portugal, onde a harmonia das formas e a proporção entre as partes sustentam a expressividade espiritual e simbólica da obra.