{"id":1071,"date":"2023-03-15T06:02:59","date_gmt":"2023-03-15T06:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uab.pt\/ii-encontro-cantanhede\/?post_type=abstract&#038;p=1071"},"modified":"2024-04-29T12:52:53","modified_gmt":"2024-04-29T12:52:53","slug":"anca-terra-de-cultos-e-folgancas","status":"publish","type":"abstract","link":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/resumo\/anca-terra-de-cultos-e-folgancas\/","title":{"rendered":"An\u00e7\u00e3, terra de cultos e folgan\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<p>A partir de 1889, ano do advento da imprensa local em Cantanhede, os jornais come\u00e7aram a servir de reposit\u00f3rio de in\u00fameras narrativas sobre o culto do povo de An\u00e7\u00e3 aos seus oragos, bem como sobre os seus desvios e as circunst\u00e2ncias culturais e socioecon\u00f3micas que os enquadravam e moldavam. Em todos estes relatos existiam tra\u00e7os comuns: a afirma\u00e7\u00e3o de que aquelas manifesta\u00e7\u00f5es religiosas eram, j\u00e1 na pen\u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9c. XIX, tradi\u00e7\u00f5es ancestrais; a incontrol\u00e1vel obsess\u00e3o pela busca de motivos para festejar, fossem eles os mais absconsos; a permanente disposi\u00e7\u00e3o para improvisar, em qualquer lugar, intermin\u00e1veis sess\u00f5es de dan\u00e7a, atividade recreativa definida como a principal Senhora da devo\u00e7\u00e3o dos an\u00e7anenses; as arrevesadas formas de tentar harmonizar o culto do sagrado e a celebra\u00e7\u00e3o do profano \u2013 a menos que fosse a celebra\u00e7\u00e3o do sagrado e o culto do profano\u2026 \u2013 que insinuavam fundadas d\u00favidas quanto \u00e0 limpidez destes conceitos e \u00e0 genuinidade das convic\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p>O enorme sucesso do culto aos oragos solenizados em An\u00e7\u00e3 devia quase tudo \u00e0 enorme aflu\u00eancia de forasteiros. Todavia, tamb\u00e9m o comportamento destes legitimava desconfian\u00e7as quanto ao enraizamento da f\u00e9 que os fazia convergir para a nobre vila nos dias de gala. Era relatado que grande n\u00famero deles se destacava, t\u00e3o-s\u00f3, pelas exterioriza\u00e7\u00f5es de devo\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da ca\u00e7arola e da bela carni\u00e7a. E que, com o decorrer dos anos, o afluxo dos romeiros ia diminu\u00eddo ao mesmo ritmo que diminu\u00eda a generosidade dos an\u00e7anenses para os presentearem com fartan\u00e7a de tremo\u00e7os e pinga. Donde se conclu\u00eda que a secura das gargantas lhes diminu\u00eda a devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Devo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seria, ali\u00e1s, o ponto forte da juventude de An\u00e7\u00e3. Agindo em contraposi\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica das virtuosas donzelas da G\u00e2ndara das beatas \u2013 que aos domingos e nas festas, recolhiam piedosamente \u00e0s capelas e nunca ousavam dan\u00e7ar \u2013 em An\u00e7\u00e3 n\u00e3o faltavam meninas que antes queriam ficar sem ceia a deixar de ir dar a sua voltinha ao pavilh\u00e3o das dan\u00e7as. Assim, em vez de recolherem \u00e0s capelas a entoarem lengalengas de Av\u00e9s, convertiam as ruas e pra\u00e7as em vastos templos de venera\u00e7\u00e3o \u00e0 Senhora Dan\u00e7a, que reverenciavam at\u00e9 \u00e0 raiz do cora\u00e7\u00e3o. Um gas\u00f3metro, dois ou tr\u00eas rudimentares instrumentos musicais, e a\u00ed estavam 100 ou 150 pares a rodopiar at\u00e9 sol alto, sem que os p\u00e9s descal\u00e7os se doessem da aspereza da cal\u00e7ada ou as narinas se apoquentassem com as nuvens de poeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Contrariando as doutrinas dos te\u00f3logos de que a felicidade era no outro mundo \u2013 e bem espinhosa de alcan\u00e7ar! \u2013 cada um tentava gozar, naquele torr\u00e3o natal, um pouco do para\u00edso. Para\u00edso que infernizava a exist\u00eancia do p\u00e1roco, torturada por permanentes pesadelos noturnos, povoados de ovelhas suas a esquivarem-se das atravancadas veredas do Bom Pastor e a enveredarem, de muito bom grado, pela companhia dos onzeneiros, br\u00edzidas, judeus e enforcados, comodamente embarcados na sat\u00e2nica nau vicentina.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade \u2013 e ao contr\u00e1rio da ideia que, de tudo isto, pode ressumar \u2013 a vida dos an\u00e7anenses pouco tinha de divertido. E as raz\u00f5es da insuper\u00e1vel \u00e2nsia coletiva de folguedo \u2013 que muito parecia reduzir a devo\u00e7\u00e3o religiosa a mero pretexto \u2013 deveremos procur\u00e1-las numa vida toda feita de extrema dureza na luta pela sobreviv\u00eancia, de acumula\u00e7\u00e3o de tens\u00f5es, fracassos, dissens\u00f5es, doen\u00e7as, tristezas, frustra\u00e7\u00f5es, enfim, de uma mis\u00e9ria econ\u00f3mica e de uma pobreza de afetos que hoje nos \u00e9 imposs\u00edvel imaginar. Por isso, a religiosidade que dava esperan\u00e7a, os folguedos que serviam de catarse e o vinho que afogava as m\u00e1goas andavam sempre de m\u00e3os dadas nesta indefin\u00edvel mescla de religiosidade e de paganismo, de piedade e de transgress\u00e3o, numa permanente e comovente busca de algumas horas de alegria que permitissem varejar para o mundo do esquecimento as agruras da vida que sempre se obstinavam em impetuosamente assomar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A partir de 1889, ano do advento da imprensa local em Cantanhede, os jornais come\u00e7aram a servir de reposit\u00f3rio de in\u00fameras narrativas sobre o culto do povo de An\u00e7\u00e3 aos seus oragos, bem como sobre os seus desvios e as circunst\u00e2ncias culturais e socioecon\u00f3micas que os enquadravam e moldavam.","protected":false},"featured_media":0,"parent":0,"template":"","meta":{"custompostfields_author":"Mestre Manuel Cidalino Madaleno","footnotes":""},"edition":[25],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/abstract\/1071","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/abstract"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/abstract"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/abstract\/1071\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1276,"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/abstract\/1071\/revisions\/1276"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"edition","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/wp-json\/wp\/v2\/edition?post=1071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}