{"id":1132,"date":"2023-03-23T13:48:52","date_gmt":"2023-03-23T13:48:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.uab.pt\/ii-encontro-cantanhede\/?post_type=abstract&#038;p=1132"},"modified":"2024-04-29T12:52:53","modified_gmt":"2024-04-29T12:52:53","slug":"gravetos-da-gandara","status":"publish","type":"abstract","link":"https:\/\/sites.uab.pt\/cantanhede-historia-arte-e-patrimonio\/resumo\/gravetos-da-gandara\/","title":{"rendered":"Gravetos da G\u00e2ndara"},"content":{"rendered":"\n<p>Os Gravetos que aqui deixo s\u00e3o est\u00f3rias e epis\u00f3dios aut\u00eanticos, de tempos n\u00e3o muito long\u00ednquos, que recolhi junto de quem os viveu ou testemunhou e que, na sua maioria, fui publicando ao longo de anos em jornais e revistas da regi\u00e3o. Foram agora compilados em livro, pois a G\u00e2ndara tem um vasto patrim\u00f3nio espiritual a n\u00e3o perder e h\u00e1 que o divulgar e preservar. Por isso interiorizei esse apelo, ou n\u00e3o fosse eu um gandar\u00eas assumido, por nascimento, por devo\u00e7\u00e3o, por temperamento, por alma e por tudo o mais que umbilicalmente me liga a estas terras do Senhor. Terras de areia: areias magras e in\u00f3spitas, areias amarelecidas, queimadas pelo sol, areias brancas, tal qual as do deserto, areias nuas, sem rasto nem alma!<\/p>\n\n\n\n<p>Assim eram estas terras at\u00e9 ao momento em que a nossa gente conseguiu delas tirar o p\u00e3o. Trabalho moroso e sem fim, num arrastar de vidas, at\u00e9 atingir uma identidade pr\u00f3pria onde se imp\u00f4s t\u00e3o vincadamente o seu patrim\u00f3nio imaterial. Falar delas \u00e9 meu prop\u00f3sito se, com isso, conseguir homenagear as mulheres e os homens que as fizeram brotar, os pais e os av\u00f3s que correram mundo, os meninos que n\u00e3o tinham um pe\u00e3o para jogar e os pobres que, rezando, pediam esmola por amor de Deus, enquanto os cegos, a cantar, se acompanhavam \u00e0 viola. E n\u00e3o vou esquecer os santinhos, os santinhos de cada dia, que por c\u00e1 tomavam conta de cada um, lado a lado com quem adivinhava, esconjurava, enfeiti\u00e7ava, predestinava, rezava e prantava. Para aqui chegar, assentei num trabalho de recolha directa, n\u00e3o com subtilezas e reservas, mas com pretendido realismo e abertura, porque tamb\u00e9m \u00e9 meu este mundo que assim abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alegro-me quando falo da casa gandaresa, dos palheiros das nossas praias, do seu mar e da pesca artesanal, que ainda nele acontece pela m\u00e3o do lavrador-pescador, dos moinhos e da gastronomia, onde t\u00e3o deliciosas s\u00e3o, em Maio, umas favas com molho de carne, como no Ver\u00e3o umas batatas assadas na areia. E n\u00e3o posso esquecer as festas em honra dos santos padroeiros, as matan\u00e7as e os jantares dos casamentos sempre ado\u00e7ados, no final, com uma divina aletria e umas papas de ab\u00f3bora \u00e0 moda da tia Maria das Pernas Gordas!<\/p>\n\n\n\n<p>Porque de um privil\u00e9gio se trata, evoco ainda, numa alus\u00e3o ao chamado patrim\u00f3nio espiritual, tudo quanto me tem sido dado participar, por altura da reposi\u00e7\u00e3o das mais diversas actividades de cariz popular: os arraiais gandareses, as desfolhadas, as Maias, a queima do Judas, o cantar das Almas Santas e, de entre outras, as romarias do Santo Ant\u00f3nio dos Cov\u00f5es, do S. Tom\u00e9 de Mira, do Santo Amaro do Picoto e do S. Rom\u00e3o dos c\u00e3es danados.<\/p>\n\n\n\n<p>Refiro tamb\u00e9m as feiras e mercados que, semanal e mensalmente, continuam a manter, como outrora, a mesma visibilidade, onde encontramos uma moldura humana t\u00e3o igual \u00e0 de outros tempos, fazendo jus \u00e0quela que \u00e9 a express\u00e3o viva do nosso passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para conhecer a G\u00e2ndara, por\u00e9m, n\u00e3o bastam estes relatos. H\u00e1 que vir at\u00e9 ela tactear os vest\u00edgios do seu passado, assistir \u00e0 venda dos p\u00e9s de porco para pagar promessas, participar numa descamisada, fazer um percurso pedonal ou de bicicleta, conhecer a hist\u00f3ria da planta\u00e7\u00e3o da floresta, saber como se faziam os adobes, os madeiramentos e as asnas, conhecer, por dentro e por fora, a tipologia das constru\u00e7\u00f5es tradicionais e sentir o significado da express\u00e3o casa onde caibas, terra quanta vejas. A par de tudo isto, h\u00e1 ainda as pessoas e os arraiais que povoam a minha mem\u00f3ria, lado a lado com as tias Marias do Finfas, as tias Marias Mancas, as tias Em\u00edlias, as Madrinhas Velhas e todas as outras mulheres que, de luto carregado, aos domingos no mercado da Tocha, cumprem uma penit\u00eancia para se imporem ao trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu sentir, a partir do momento em que me \u00e9 dado tomar uma est\u00f3ria, um facto, um relato ou um acontecimento que a este lugar diga respeito, e reportando-os \u00e0s vidas e circunst\u00e2ncias de quem por c\u00e1 vive, c\u00e1 tem ra\u00edzes, ou simplesmente por aqui se ter\u00e1 cruzado, considero que estou a honrar estes ch\u00e3os, mais quem os moirou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto s\u00e3o Gravetos da G\u00e2ndara, que apeiraram as mem\u00f3rias que aqui deixo, numa altura em que a consci\u00eancia me lembra qu\u00e3o dif\u00edceis s\u00e3o as pegadas na areia!<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os Gravetos que aqui deixo s\u00e3o est\u00f3rias e epis\u00f3dios aut\u00eanticos, de tempos n\u00e3o muito long\u00ednquos, que recolhi junto de quem os viveu ou testemunhou e que, na sua maioria, fui publicando ao longo de anos em jornais e revistas da regi\u00e3o. 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